26/03/2022 às 10h26min - Atualizada em 26/03/2022 às 10h26min

Como os investidores externos veem Cerejeiras? Três empresários de fora que investiram na região contam por que decidiram investir

Um dos empreendedores entrevistados disse que “Cerejeiras é uma cidade barata”. Os outros veem no agro a fonte que sustenta o sucesso de seus negócios. O que podemos aprender com eles?

Rildo Costa
Vista aérea de Cerejeiras. A cidade é pequena, mas a prosperidade é grande. (Foto: Renato Novaes: RN Produções)
Como Cerejeiras é vista por quem está de fora?

Melhor, como a cidade, e toda a região que a cerca, é vista por investidores que vêm de outras regiões do Estado ou do País para investir aqui?

Foi com esta dúvida em mente que o autor desta coluna decidiu conversar com empreendedores que investiram ou estão investindo na região de Cerejeiras.

Consegui conversar com três investidores: um deles investiu alguns milhões numa empresa agrícola, outro investiu numa empresa do setor de serviços e o outro não é necessariamente um investidor, mas é um empreendedor no ramo do conhecimento – é um consultor do agro.

Todos os três entrevistados moram em Vilhena.

No entanto, como já foi dito, todos os três atuam em Cerejeiras e começaram a investir na região nos últimos cinco anos.

Por questão de ética, os entrevistados não serão identificados, tanto por causa da discrição de suas estratégias de investimento quanto por causa das percepções que eles passaram ao autor desta coluna, que, facilmente, num contexto com pessoas com um conhecimento parcial da situação ou até mesmo mal-intencionadas, podem ser muito mal interpretadas.

O primeiro investidor explica que decidiu investir em Cerejeiras por um motivo: o nível de exigência de investimento aqui é menor que em Vilhena.

“Cerejeiras é uma cidade barata”, disse o empresário. E continua a sua explicação, enquanto toma um copo de vinho vermelho-sangue numa taça no sobrado de um restaurante em Vilhena: “Cerejeiras é uma cidade que não tem nem miserável nem milionário”, disse. E arremata: “E ainda tem quase 100% de rede de esgoto. Qual cidade tem isso?”, disse, dando uma gargalhada, levando o vinho à boca.

Pedi a ele para explicar melhor a afirmação de Cerejeiras ser uma “cidade barata”.

“Veja bem, estou falando exclusivamente em termos de investimento. Vou de dar um exemplo. Eu preciso de 150 milhões de reais para montar um supermercado em Vilhena, pois se eu precisaria montar um que supere todos os outros, cujo padrão mínimo é o da rede Irmãos Gonçalves. Já em Cerejeiras, com R$ 15 milhões eu já monto um supermercado totalmente diferente na cidade”, disse, sorrindo, como se estivesse acabado de descobrir o mistério da pedra filosofal.

Sobre a questão dos “milionários e miseráveis”, pedi para explicar também. “Uma cidade onde a discrepância de renda é muito grande não é bom para a maioria dos negócios. Cerejeiras é mais distribuída neste aspecto. Quantos produtores de soja há em Vilhena? Uma meia dúzia, com áreas enormes. E em Cerejeiras? Mais de 300”, disse, já sinalizando que talvez já tenha desvendado demais.

O outro empresário, embora menor que o primeiro entrevistado, é uma referência em Vilhena. Também investiu em Cerejeiras. Com um celular na mão e deslizando constantemente a tela do aparelho como se estivesse monitorando a chegada de uma mensagem importante, ele explica, sentado no escritório de uma de suas empresas em Cerejeiras. “Os empresários locais ficam com medo de investir e desagradar o amigo. Cidade pequena é assim: você é irmão de fé do seu concorrente e isso te impede de ousar e montar um negócio empolgante. Daí o espaço se abre para investidores de fora, que não tem essa frescura”, disse ele, pausadamente, como se estivesse lecionando uma aula de negócios numa faculdade de negócios. E complementa: “Além disso, numa cidade pequena, nem sempre é bem visto um empresário prosperar acima que os outros. Então todo mundo chega até certo nível e para ali, por pudor. E isso é uma oportunidade para os de fora”, disse.

Já o consultor, entrevistado através de mensagem de áudio de celular, e que fatura algumas dezenas de milhares de reais na região com consultorias agrícolas e morando em Vilhena, não economizou palavras – como são típicos dos consultores. Ele discorreu sobre a colonização da região de Cerejeiras, falou dos ciclos econômicos pelos quais o município passou e finalmente começou a afirmar algo mais útil: “Quem está inserido na economia local em Cerejeiras só tem um destino, o futuro”, disse.

Eu quis saber mais. Ele disse: “Pense no agro. O agro é gigante e crescente, certo? A região de Cerejeiras tem solo muito fértil e produtores rurais com cultura produtiva mais elevada. Então não tem como a região não crescer”, disse. E complementa: “E isso abre oportunidades para todos os setores, inclusive para empresas que não são no segmento agro, como restaurantes, hotéis, cafeterias, clínicas médicas, dentre outras”, disse.

Vamos deixar algo muito claro aqui: essas afirmações expostas pelos entrevistados não são verdades absolutas. São, apenas, percepções.

Mas seria muito útil se passássemos a enxergar a região de Cerejeiras pela ótica de quem está de fora – especialmente se esse alguém é um investidor.

Algumas das percepções deles podem nos soar ofensivas, até. Mas podem ser verdadeiras ou conter fragmentos de verdade.

O mundo dos negócios demanda uma alta dose de racionalidade e requer que nos dispamos de sentimentos preconceituosos, bairristas e românticos. O mundo dos negócios não funciona através de arroubos de defesa da honra do local onde moramos, mas através de análises frias e certeiras das oportunidades do mercado – e, acima de tudo, uma disposição de empreender de forma compromissada em fazer de modo diferente.

Para aqueles que pegam emprestados os olhos dos investidores externos e enxergam as oportunidades com olhares de quem está de fora, e com o diferencial de quem já está por dentro, e que não deixa o coração subir para a cabeça, há uma gama de oportunidades de identificar novas frentes de negócios na região de Cerejeiras.

A porta está aberta e, agora, iluminada.





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