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12/02/2023 às 14h42min - Atualizada em 12/02/2023 às 14h42min

Rondoniense se destaca ao fazer centro cultural em casa e criar 'berimbaussauro'

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Pela classificação erudita, ele seria um "multiartista". Mas, dentro da cultura popular, é um mestre. Dom Lauro, 74, até dez anos atrás era um conhecido comerciante do centro de Porto Velho, capital de Rondônia. De tantos problemas que teve com funcionários, clientes e fornecedores, fechou sua loja de móveis e eletrodomésticos, acertando todas as dívidas. Começou aí sua "aposentadoria artística", pintando, esculpindo, escrevendo e inventando e tocando instrumentos musicais, como o "berimbaussauro".

"Tirei tudo do meu caminho: compromissos, horários, orçamentos. Agora, todas as horas da minha vida estão dentro da arte", define. Ele transformou um antigo sobrado de sua família no Espaço Cujuba, um centro de exposições, shows, peças e cursos. "Uma vez fiz uma exposição numa casa de cultura, mas em poucas semanas tive que desmontar tudo. Fiquei com uma vontade danada de ter ela pra sempre. Por isso, decidi morar em uma exposição permanente", conta. Ele vive no local, que chama de "meu acampamento".

Hoje, um círculo de realizadores da música, artes plásticas, fotografia e literatura daquele canto da Amazônia se reúne embaixo do refrescante telhado de palha de carnaúba trançada dali. O mestre recebe a todos deitado em sua rede, na sombra e pegando a brisa que passa entre a parede de bambu. Lá, ele conversa, recita sua poesia, canta e balança o chocalho em ritmo bem indígena. "Daqui da minha rede para todas as redes sociais", brinca.

Sempre com chocalho nas mãos, Dom Lauro recebe os visitantes em uma das redes do centro cultural que montou em Porto Velho (RO) - Caio Guatelli/UOL

Sempre com chocalho nas mãos, Dom Lauro recebe os visitantes em uma das redes do centro cultural que montou em Porto Velho (RO) - Caio Guatelli/UOL



Cara de paca Lauro Lauri das Neves nasceu em Frecheirinha, no sertão cearense, e migrou aos 16 anos para Porto Velho. Como tantos nordestinos atraídos pelos ciclos da borracha, sua família veio atrás da "terra da fartura". Seu pai tinha primeiro uma banca de feira que vendia roupas e sapatos. Depois montou uma bodega, que comercializava desde farinha até cachaça e querosene para os lampiões, que eram a única forma de iluminação da freguesia. Além disso, seu pai era "mensageiro": lia e escrevia a correspondência dos conterrâneos recém-chegados à floresta, a maioria sem estudo nenhum. "O povo queria mais era chamar todo mundo pra cá. Pediam para meu pai escrever: 'Vem logo que aqui tem muita água'. Eu também ajudava. Acho que foi aí que começou meu interesse pela escrita", conta Dom Lauro. 

Naquela época, em meados dos anos 1960, a única ligação de Porto Velho com o resto do país era pelas águas do rio Madeira, afluente do Amazonas. A ferrovia Madeira-Mamoré, que ligava a cidade com a Bolívia, estava em decadência e seria desativada logo depois. Hoje, as rodovias esquadrinharam o Estado, trazendo a influência e os costumes das populações do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país. E a fronteira agrícola engoliu boa parte da mata.

"Antes aqui a população era tudo 'cara de paca', como o pessoal chama quem é mistura de nordestino com indígena. Foi assim que se formou nossa cultura beiradeira, da beira do rio Madeira", conta. "Aqui não tem marola, tem o banzeiro, que é a correnteza dos rios. Também não tem orla. É barranco mesmo. A gente cria na margem do rio, por isso é uma cultura que já nasce marginalizada", complementa, com uma ponta de ironia.

dom lauro - Caio Guatelli/UOL - Caio Guatelli/UOL

dom lauro - Caio Guatelli/UOL - Caio Guatelli/UOL



Berimbau colossal Dom Lauro adora transformar em arte o que encontra pelas ruas e pelos rios de Rondônia. As tábuas dos pallets que o comércio abandona nas calçadas, por exemplo, viram quadros que retratam as corridas de rabetão (motor que dá propulsão pra canoa, como o de um cortador de grama). Essas são competições típicas dos ribeirinhos que atravessam de uma borda a outra dos igarapés em suas canoas com a propulsão de uma rabeta, um motor similar ao de um cortador de grama com uma hélice na ponta.

Ele também recolhe latões de tinta nas construções e os transforma em caixas de ressonância para seu "berimbaussauro" (às vezes, ele grafa "Berimbau Ossauro"). Dom Lauro deitou e encompridou o berimbau. Com falta da tradicional biriba (ou biribá), ele usa uma vara vergada de canela-de-velho, árvore comum na região, para estirar a corda de aço de onde sai o som.

Ele toca esse berimbau horizontal com duas varetas metálicas, adicionando distorções de blues norte-americano para o instrumento africano. "Botei esse nome porque é muito grande. Parece coisa de outro tempo, primitivo como os dinossauros e sem lugar neste mundo." Além de cantar suas músicas tocando "berimbaussauro", ele acompanha bandas locais como Canaranas e Beradelia em seus shows.

Aos 'troncos e barrancos' "A arte daqui está verde e não tem limites, como a própria floresta." Assim Dom Lauro fala da cultura na região Norte, que conta com poucos nomes, como Milton Hatoum e David Kopenawa Yanomami, escritores com reconhecimento nacional. Os escritos de Dom Lauro são impressos em fotocópias encadernadas e amarradas por fios, que ele batizou de "literatura de barbante", um parente amazônico do cordel nordestino. Neles, ele descreve "a paisagem afogada pelas hidrelétricas" em que os peixes sentem "o gosto de água com cimento" e os indígenas estão "destribados e desindiados" e "pescam só pensamento".

Em um poema, Dom Lauro relata o extremo a que chegou o desmatamento na fronteira com a Bolívia: "Nas matas do Guaporé / O pouco que restou em pé / Pássaros e borboletas voam sem ter onde pousar". Em outro trecho, ele engendra uma duplicação da floresta: "Se eu pudesse, eu ia fazer duas Amazônias / Uma pra mim, outra para ti poluir."

Para ele, a solução está em "acabar com o conceito de lixo". "Você não se livra de nada. O lixo é uma ideia ultrapassada. O plástico já está dentro de nós, com a ciência descobrindo partículas dele no nosso sangue", argumenta Dom Lauro, que usa muitos materiais recicláveis em suas obras.. Os rios amazônicos envenenados com o mercúrio dos garimpos matam de várias formas. "Os predadores do candiru, o peixe-vampiro, estão sumindo, e ele está atacando cada vez mais as pessoas, sugando sangue e entrando por qualquer orifício do corpo, do ouvido até a vagina", lembra. "Defendo a Amazônia encantada. Para isso, temos que tirar o valor do ouro e colocar nas árvores."

Não tem preço "A arte me acalmou, virou meu vício. Tem muita gente da minha idade fazendo besteira por aí. Quando eu quero fazer alguma besteira, faço arte." Dom Lauro nunca vendeu nem quis vender nenhuma de suas obras: "Não quero dinheiro, quero criar." Mais pragmáticos, outros artistas do Espaço Cujuba, como a fotógrafa e cantora Marcela Bonfim e o escultor Hely Chateaubriand, estão catalogando seu acervo para exposições no segundo semestre de 2023.

O local está abarrotado das obras dele. Pinturas e esculturas estão por toda parte, mostrando sua produção incessante durante a pandemia, enquanto o espaço está fechado para a visitação pública. "Não quero reconhecimento. Se quiser, pode elogiar. Mas não é obrigação não, viu?", dispara, e logo engata uma gargalhada. Fonte: Uol

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