Pesquisas recentes demostram aumento da violência contra mulheres, enquanto outras formas de violência diminuem. No Brasil e no mundo, fala-se em “epidemia” de feminicídio, sem contar as habituais formas de violência doméstica e os casos de estupro (cerca de nove estupros por hora no Brasil).
O aumento da violência contra mulheres implica que a violência não é neutra, algo que a expressão “violência doméstica” acaba por camuflar.
Estamos falando de violência de homens contra mulheres. Para deixar bem claro, a violência doméstica é uma prática, principalmente masculina, que tem a ver com monopólio da violência, mas também com a violência como um privilégio, ou seja, com a simples autorização para praticá-la.
Essa autorização é cultural. A violência é a própria matriz de subjetivação masculina, ou seja, dos valores e hábitos de produção da masculinidade na cultura. Enquanto homens são formados e educados pela violência, as mulheres são educadas para o cuidado. Ainda que haja exceções, essa é uma regra.
Argumento falacioso
Contra o argumento falacioso de que homens também matam homens e praticam muita violência contra homens, como se a naturalidade com que se aceita a cultura da violência masculina endógena tivesse força de verdade, podemos sempre lembrar que, de fato, homens matam homens, mas matam também mulheres e crianças.
Mulheres, por sua vez, matam, mas em parâmetros estatísticos muito inferiores e até mesmo excepcionais em relação à regra masculina. Lembrando sempre que é a exceção que estabelece a regra.
Nesse cenário, um tipo um pouco diferente de violência chamou atenção nos últimos dias. Foi a chamada “violência vicária”, que veio à tona com o caso de Thales Machado, assassino de seus dois filhos – depois do crime, ele tirou a própria vida na cidade de Itumbiara, em Goiás.
A violência vicária é praticada para atingir a mãe cometendo violência contra seus filhos ou pessoas a ela ligadas. Trata-se de uma violência que tem algo de indireto, pois não atinge o corpo da vítima, mas atinge o corpo e a vida de pessoas amadas pela pessoa que se quer atingir.
A violência praticada por Thales Machado não é incomum. Há inúmeros casos de homens que matam os filhos para atingir a mãe. Vicária é a destruição da vida simbólica de uma mãe, que permanecerá viva sob um eterno sofrimento calculado pelo perpetrador do crime.
Que haja pessoas que tenham condenado Thales por não ter matado a ex-mulher, e sim os filhos, sugere a naturalização da matança de mulheres e uma culpabilização que também é naturalizada. Os meninos poderiam ser poupados, a mulher não.
A culpabilização da mulher é gêmea da desinformação machista que sustenta o patriarcado. Em palavras muito simples, poucos se ocupam em ver a versão da mulher, enquanto a palavra de um homem vale apenas por ter sido dita ou escrita, como é o caso da carta divulgada do assassino-suicida.
A carta valeu como prova da verdade para muita gente, apenas porque veio a público. A presunção de verdade e inocência do homem – mesmo ele sendo explicitamente culpado de seu crime – gerou uma culpabilização da mulher, cuja condição de vítima não foi questionada pelos odiadores misóginos das redes. É a inversão do sentido, a vítima tratada como culpada, o que está em cena.
Delírio machista
O acontecimento produziu diversos atos de misoginia contra a mãe dos meninos assassinados e ex-esposa do pai-assassino. A partir da carta do assassino-suicida, a mãe foi julgada nas redes e culpabilizada por pessoas que sequer sabiam o que estava acontecendo e aceitavam, previamente, a verdade da narrativa do assassino-suicida.
Quando veio à tona que o pai-assassino é que teria traído a sua esposa, motivo pelo qual ela se separou dele, sendo, portanto, sua ex-esposa, a mesma população não veio pedir desculpas pelo erro.
De um lado, todos sabem que a desinformação é muito difícil de desfazer, ou seja, ela é sistêmica, ela cria um imaginário da verdade pelo qual a verdade significa que “uma mulher é culpada”. Esse é o núcleo da misoginia desde Eva e Pandora.
Uma mulher é a inimiga porque é a culpada de todos os males na vida dos homens. Não se imputa ao homem a loucura, a maldade e nem mesmo a responsabilidade pelos próprios crimes. Ele mata com suas próprias mãos e armas, mas no delírio machista é uma mulher que o levou a isso. Esse é o tipo de imaginário covarde promovido pelo patriarcado.
Se, de um lado, as pessoas não conseguem acessar a informação verdadeira depois de uma onda de mentiras, de Fake News, de outro lado, é o julgamento prévio, é a prática da misoginia que move a turba de modo a desresponsabilizar o homem.
Assim, a população virtual realizou um verdadeiro linchamento da mãe nas redes sociais. No enterro dos próprios filhos, ela teve que ser escoltada pela polícia como uma criminosa sujeita ao justiçamento público.
Por que essa sociedade precisa culpar as mulheres para liberar os homens de suas responsabilidades se explica pelo fato de que a sociedade que odeia as mulheres é a mesma que ama e cultua os homens.
Fonte: Marcia Tiburi/Revista Liberta.