Nesta semana fui surpreendido com um depósito creditado via pix em minha conta bancária, originado da venda de uma propriedade de minha saudosa avó Juliana Evangelista Ursino, localizada na Rua Paraíba, Bairro do Cruzeiro, na vila Célia, em Campo Grande, meu querido estado do Mato Grosso do Sul, cidade linda, onde nasci e me criei e ainda trago na memória a aconchegante casinha da minha avozinha “Júlia” como todos a chamavam, única ascendente que conheci e tive o privilégio de conviver, pois no meu nascimento meu avô, Abadio Firmino Batista, já era falecido e meus avós paternos não cheguei a conhecer, já que meu pai José Francisco, faleceu em 1981.
Minhas lembranças me remetem a casa simples de madeira, com diversos cômodos espalhados pelo quintal, com imensas árvores frutíferas, entre elas mangueiras de várias espécies, cajueiro, goiabeira, abacateiro, além de criação de porcos, galinhas e patos.
Ficava ansioso para a chegada do final de ano, período de férias, era a época de irmos para a aconchegante casa da “vó Júlia”, onde todos se encontravam para os festejos natalinos e de ano novo, minha avó teve 8 filhos, sendo 4 homens e 4 mulheres, entre eles minha mãe Elzira Evangelista de saudosa memória. Neste local se reuniam tios, sobrinhos, primos, amigos e vizinhos, a diversão era as partidas de futebol no meio da rua, sem asfalto, partidas de bets ao ombro, queimadas, esconde-escode, cabra-cega.
Minhas memórias me levam a um enorme pé de manga comum, localizado no fundo do quintal, na divisa com o quintal do vizinho, a frondosa árvore frutífera fazia sombra na casa do tio Edson. Eu chegada na casa da avó, tirava a roupa de passeio, colocava um short, descalço, ainda me lembro do frescor do terreno úmido nas solas dos pés, eu subia naquele pé de manga e ficava horas em seu galho mais alto, saboreando dos frutos colhidos na hora, o sabor daquelas mangas eram inigualáveis.
A casa da “vó Júlia” vivia cheia, dormíamos amontoados nos colchões jogados ao chão, fazíamos filas para o banho no único banheiro disponível, a comida era farta, com as panelas cheias sobre o fogão de lenha, galinha caipira ao molho, polenta, porco frito, somente de lembrar sinto o gosto em minha boca. Durante décadas ali foi o ponto de encontro dos familiares, não existia telefone, celular ou nem mesmo internet, mas era um tempo bom, aos domingos a gente acordava com o badalo do sino da Igreja católica São João Bosco, que ficava em frente da casa, de onde escutávamos o sermão do Padre Fortunatto durante as missas das 07, 08 e 09h das manhãs dominicais. Em baixo do pé de abacate na calçada do terreno tinha bancos de madeiras, local de aglomeração para o tereré, chimarrão e conversa fiada.
Ao longo dos anos, numa força tarefa familiar, uma casa de alvenaria deu lugar ao casebre de madeira, a modernidade chegou com o asfalto, rede de esgoto e outras infraestruturas e junto veio a valorização do bairro e da região, por muitos anos, a casa humilde da “vó Júlia” contrastou com as casas suntuosas, mansões, prédios comerciais e residenciais. O terreno foi vendido por mais de meio milhão de reais e a herança foi dividida pelos filhos ainda vivos, netos e bisnetos, herdeiros que minha vozinha nem chegou a conhecer.
Exatamente hoje, dia 17 de novembro, completam-se 22 anos, que minha vozinha Juliana Evangelista Ursino foi morar com Deus no plano celestial. Confesso que daria 10 vezes ou mais, do valor recebido como herança para voltar no tempo e vivenciar essas experiências mágicas novamente.
Agora, depois do inventário concretizado, partilha realizada, irei realizar um pedido especial feito por minha “vó Júlia” e minha mãe Elzira, vou finalmente incorporar o sobrenome EVANGELISTA a meu nome, por meio de alteração da minha certidão de nascimento, atendendo assim o desejo de duas grandes mulheres que foram referência em minha vida.
O autor, Elizeu Evangelista é jornalista, radialista e editor de conteúdos do portal eletrônico Gazeta Rondônia - Crédito de imagem atual da propriedade aqui narrada - Google Maps.