26/02/2022 às 09h53min - Atualizada em 26/02/2022 às 09h53min

Ajudando o comércio local em meses tidos como “fracos”, safra de soja aquece economia local em Cerejeiras

Movimento nos restaurantes sobe mais de 20% na época de safra. Supermercados, mecânicas, combustíveis e transportes são os demais segmentos locais aquecidos pela colheita. Mas sem levar a economia local a ser refém de ciclos

Gazeta Rondônia
Rildo Costa
O produtor Vantuir Navarro está colhendo a soja. O que ele ganha no campo gasta na cidade. (Foto: Rildo Costa)

O produtor rural Vantuir Benedicto Navarro está em plena colheita de soja na propriedade da família, que fica na Linha 4, no município de Cerejeiras, a 14 quilômetros da cidade.

A rotina do produtor é basicamente uma atividade que une o trabalho na lavoura, com a colheita da soja e o plantio do milho feito de forma simultânea, e as idas e vindas à cidade. “Sempre precisamos ir lá buscar uma peça de uma máquina, trazer marmita para os funcionários, comprar uma ou outro coisa”, diz o produtor.

O que você leu nos parágrafos anteriores é uma simples descrição de como a colheita da soja alimenta a economia local em Cerejeiras.

Diversos setores são beneficiados pelo movimento da colheita, que vai de janeiro a março, sendo mais intenso em fevereiro. E um setor estimulado pela safra acaba estimulando outro segmento. Por exemplo, a lavoura fomentam os restaurantes, os restaurantes refletem nos supermercados, e assim sucessivamente.

Os setores mais impactados pela colheita da soja na região de Cerejeiras são os seguintes: o transporte, os postos de combustível, os restaurantes, os caminhoneiros (e transportadoras), as oficinas de máquinas pesadas, as oficinais de molas de caminhões, as representações agrícolas e os supermercados. Isso não significa, porém, que outros setores não são aquecidos pela safra. Essa é apenas uma lista dos segmentos que conseguimos constatar de forma mais evidente.

Por exemplo, os restaurantes têm um movimento aquecido nesta época do ano por conta da safra. “Estimamos em uns 20% mais do que em outras épocas do ano”, diz o proprietário do Restaurante Tempero Bom, Reginaldo Zeferino.

O gerente do Supermercado Betoni, Alexandre Fernandes, afirma que a empresa vende mais nas safras. “Os restaurantes compram com a gente e isso melhora o nosso movimento”. A mesma realidade é apontada pelo proprietário da empresa, Vanderlei Betoni. “Os meses de fevereiro costumavam ser mais fracos em outros anos. Mas neste ano já batemos a meta do mês e atribuo isso à safra de soja”, diz o empresário.

Mas não é só o alimento para os seres humanos que aumentam na época da colheita. O combustível para os caminhões e máquinas também têm uma demanda aquecida, o que alegra os donos dos postos. “As vendas aumentam nessa época em torno de 20% a 30%”, diz Sidnei Baldin, dono do Auto Posto Baldin. “Aqui temos uma melhora por volta de 30%”, diz Claudia Dutra, do Auto Posto Bem.

Quando o caminhão tem um defeito de mola, por exemplo, a empresa FJ Posto de Molas, que fica no Parque Industrial de Cerejeiras, tem a solução. E na época da safra da soja a procura aumenta. “Não tenho números exatos, mas acredito que aumentamos o movimento em 50% nessa época”, diz a empresária Cristiane de Fátima Rodrigues, sócia da empresa com o marido.

Os pequenos empreendedores do volante também sentem o impacto benefício da safra de soja. É o caso do caminhoneiro cerejeirense Osmar Canton, que inclusive acabou de adquirir uma carreta zero quilômetro. “Aumentou a demanda pelo frete. E isso fez melhorar o nosso preço, que saiu de R$ 140 a tonelada para R$ 190 a tonelada, de Cerejeiras a Porto Velho. Na verdade, esse preço não é justo ainda, pois os custos subiram muito e estávamos pagando para trabalhar, mas a safra ajudou e está bem melhor do que estava”, diz o caminhoneiro, que estava em uma lavoura esperando a carreta ser carregada para levar a soja para o secador.

A mão de obra em geral, como os postos de trabalho de operadores de máquinas, também aumenta – e muito – na época da safra. A propriedade do produtor Vantuir Navarro, por exemplo, contratou 15 funcionários. E, evidentemente, essa mão de obra ajuda a inserir mais dinheiro na economia local.

O presidente da Associação Empresarial de Cerejeiras, Wallaci Machado, proprietário da Imaral Auto Center, reconhece os efeitos positivos da safra de soja na economia local. “Alguns setores são mais impactados que outros, mas há uma aquecida geral sim”, diz. E complementa: “Mas é importante lembrar que o comércio de Cerejeiras não é refém de certas épocas, como já foi no passado, em que o comerciante tinha um calendário da colheita do arroz ou do feijão ou esperava todos os meses pelo pagamento do leite. Hoje é mais equalizado”, explica.

O produtor rural Erivelton Benedicto Navarro, que é vereador em Cerejeiras, filho de pioneiros e irmão do agricultor entrevistado no início desta reportagem, vai mais ou menos na mesma linha do presidente da ACIC. “A safra de soja não é o único momento em que o produtor injeta dinheiro na economia. Ele injeta o ano todo. As construções de barracões, silos e secadores, por exemplo, acontecem geralmente no período fora das safras, às vezes durante todo o ano. Além disso, o produtor consome na cidade periodicamente, indo a um local para comer, comprando no supermercado, dentre outras movimentações rotineiras de todo morador da região”, diz.

Para o presidente do Sindicato Rural de Cerejeiras, entidade que representa os produtores rurais, Jair de Oliveira Ferro, a colheita é um dos motores econômicos da região. “A safra de soja contribui muito significativamente para a economia loca. Basta sairmos nas estradas que já identificamos o movimento de carretas de forma visível”, diz.

A região de Cerejeiras, que, além do município, também inclui os municípios de Corumbiara, Cabixi, Colorado do Oeste, Pimenteiras do Oeste e parte do de Chupinguaia, tem uma área de cultura de soja que chega a 180.000 hectares. Na safra de 2021, por exemplo, a saca de soja em Cerejeiras estava sendo vendida a R$ 145. O resultado final é de que a região gerou, naquele ano, o valor bruto de R$ 1.566.000.000 (isso mesmo, 1,6 bilhão de reais).  Este cálculo foi feito pelo engenheiro agrônomo Hugo Dan, do Centro de Pesquisas Agropecuárias (CPA), de Cerejeiras, a pedido do autor desta reportagem. Para a safra de 2022 (que ainda não está concluída), o valor poderá ser maior devido a possível elevação de área plantada, produtividade e preço. Convém, no entanto, ressaltar duas coisas: 1) que os números acima são uma estimativa, mas os valores exatos não devem fugir muito disso; 2) estamos propositalmente desconsiderando a safra do milho, pois será assunto de outra reportagem específica.
 

É bem verdade que nem todo este dinheiro fica na região, pois os produtores precisam comprar insumos e maquinários que são produzidos fora. Mas existem iniciativas, como o cooperativismo, que tentam reter uma parcela maior deste montante na região.

Por tudo isso, safra de soja é um acontecimento anual que traz dinheiro de fora e o insere na economia local. No entanto, a economia local não é refém de um único ciclo agrícola. Ao contrário, numa sociedade com diversos segmentos econômicos saudáveis como é a da região de Cerejeiras, a safra de soja vem para aquecer os setores que já estavam indo bem.
 


 


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