05/06/2021 às 19h22min - Atualizada em 05/06/2021 às 19h22min

Comprovando maturidade do empreendedor e solidez do mercado, saiba o segredo das empresas com mais de 30 anos em Cerejeiras

Rildo Costa

Rildo Costa

Jornalista e Publicitário

Gazeta Rondônia
Metalúrgica Paraná. Sempre acompanha as novas exigências do consumidor para nunca sair do mercado. (Montagem: Rildo Costa)
Todas as manhãs, o empresário José Carlos de Souza Freire chega à empresa para trabalhar. Zé Carlos, como é conhecido, faz seu costumeiro expediente na Metalúrgica Paraná, no centro de Cerejeiras, há 34 anos. Ele começou essa rotina em 1987. Começou sozinho e hoje conta com 12 funcionários.

O que faz uma empresa durar tanto tempo?

Nesta reportagem, o autor desta coluna percorreu a cidade de Cerejeiras à procura de negócios com mais de três décadas de atuação no município.

Cada empresário que se dispôs a dar uma entrevista revelou suas táticas, seus segredos e seus valores para permanecerem no mercado há mais de 30 anos.

A expectativa de vida de uma empresa no mundo é de 35 a 45 anos. Mas esta é a expectativa e não, necessariamente, que todas as empresas chegarão a este tempo de existência. Aliás, a maioria não chega.

Segundo o IBGE, só 25% das empresas brasileiras conseguem sobreviver por uma década. Em outras palavras, 75% dos negócios morrem nos primeiros 10 anos de vida no Brasil.

Em cinco anos, 47,5% das empresas brasileiras fecham as portas, também de acordo com o IBGE.

Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), a idade média das empresas brasileiras é de 8,7 anos.

Ultrapassar os 30 anos no mercado, então, é coisa rara. Uma pesquisa, também do IBPT, feita com exclusividade para a revista Época Negócios, revela que as empresas no Brasil costumam se extinguir com 34,7 anos.

Não há dados apurados sobre a durabilidade das empresas acima de três décadas no Brasil. Mas uma pesquisa feita no estado de Santa Catarina, conduzida também pelo IBPT, pode apontar para uma estimativa. Segundo o estudo do instituto, somente 1% dos negócios catarinenses conseguiu chegar a 50 anos de história.

O mercado brasileiro conta com poucas empresas muito antigas. Talvez a mais velha delas seja a Granado, do setor de cosméticos e ainda em atuação, que teve o imperador Dom Pedro II como um dos seus clientes. A empresa foi fundada em 1870, com 151 anos.

No mundo, a empresa em atividade conhecida como a mais velha é uma pousada no Japão, que abriu as portas em 705, com 1.316 anos.

Em Cerejeiras, das 152 empresas associadas à Associação Empresarial de Cerejeiras (ACIC), somente nove têm mais de 30 anos. Lembrando que o próprio município tem apenas 38 anos de emancipação.
Seja como for, é consenso que dificilmente uma empresa passe das três décadas de existência.

A razão principal de as empresas morrerem antes disso é demográfica, ou seja, tem a ver com a condição natural dos seres humanos. O tempo médio de produtividade de um ser humano é de 35 anos, com honrosas exceções. Se um empreendedor abre uma empresa com 18 anos de idade, por exemplo, quando o negócio completar 30 anos, o empresário já terá 48 anos.

O problema é que quando uma empresa chega há três décadas, o negócio já começa a pedir um processo de sucessão. E aí a coisa complica. Por uma série de razões, muitos empresários não conseguem passar sua empresa para um sucessor. Dentre os motivos podem estar: dificuldade de desapegar do negócio, falta de disposição de ensinar os filhos a gerir e empresa, falta de interesse dos descendentes pelo empreendimento ou, simplesmente, porque o empresário não teve filhos e não quer formar uma liderança que não seja seu descendente biológico.

Por essas e outras, chegar (ou ultrapassar) as três décadas de existência é um ato de heroísmo e de superação das próprias limitações humanas.

Um exemplo de sucessão empresarial pode ser visto na empresa mais antiga citada nesta reportagem. Trata-se da Drogarias Ultra Popular. A farmácia pioneira no município tem 38 anos de CNPJ. A empresa teve origem numa família de farmacêuticos pioneiros em Colorado do Oeste e em Cerejeiras no início da década de 1980. Em 1985, o jovem empresário Roberto Felicio, conhecido como Beto, comprou a farmácia, então chamada Droga Sul 2, já com três anos de atuação. Anos depois, por volta de 2012, o filho Diego Albonette, farmacêutico formado, implantou mudanças na empresa e mudou o nome para Levefarma Drogaria & Manipulação. Em 2020, a farmácia passou a fazer parte da Rede Drogarias Ultra Popular, marca que adota atualmente.

O ramo de farmácias passou por profundas transformações nas últimas décadas no Brasil. Após a autorização de medicamentos genéricos no final da década de 1990, a indústria farmacêutica viu o preço seus produtos despencar na década seguinte. E essa realidade propiciou o surgimento de grandes redes farmacêuticas, que entraram numa guerra de preço implacável, matando pequenas farmácias país afora.

A Drogarias Ultra Popular, que hoje tem este nome, sobreviveu porque se aliou aos inimigos, por assim dizer. O jovem farmacêutico Diego Albonette decidiu integrar a farmácia numa associação de alcance nacional. A empresa, então, foi aceita no grupo Farmarcas, que gerencia várias marcas de redes farmacêuticas, dentre elas a Ultra Popular, que oferece condições para que a pequena empresa enfrente a guerra de preço no mercado farmacêutico.

Questionado sobre por que a empresa durou tanto tempo - e num setor tão difícil-, o empresário Diego Albonette afirma. “Temos que acompanhar as transformações do tempo e fazer as mudanças que o mercado exige”, disse ele.

Atualmente, a Drogaria Ultra Popular está dando resultados positivos. A empresa ainda preserva a antiga marca, Levefarma, para medicamentos manipulados da empresa. A pandemia do coronavírus, inclusive, acabou ajudando o negócio, pois o setor farmacêutico foi aquecido neste período.



No centro de Cerejeiras, ao lado do único semáforo na Avenida das Nações, na BR-435, existe um posto de combustível da Petrobras. O Auto Posto Baldin, antigo Auto Posto Dois Irmãos, tem exatos 31 anos de atuação no município, começando a atividade em 1990. Sidnei Baldin, que assumiu a empresa do pai há alguns anos, revela o segredo da longevidade do negócio. “Seriedade e honestidade. Atender bem os clientes e oferecer o que as pessoas querem comprar. Não tem segredo”, diz o empresário.

O consultor empresarial Vinicius Paiva da Silva, da VPS - Assessoria & Consultoria, de Vilhena, atua em empresas em três estados brasileiros há pelo menos 25 anos. Começou a atender negócios rurais e urbanos no Rio Grande do Sul, onde nasceu, e atende também em Rondônia, para onde se mudou, e no Mato Grosso, especialmente na região de Comodoro. Segundo o consultor, que leciona aulas de gestão em liderança em cursos virtuais lançados pela VPS, pelo menos duas características existem nas empresas que conseguem chegar a três décadas de existência. “Os donos dessas empresas têm propósito e persistência. É o que eu chamo de dois P’s. Não se trata de alguém que apenas abre uma empresa para ganhar dinheiro, mas para cumprir um propósito de vida e, durante este tempo, ele tem persistência para superar os desafios e continuar no negócio”, disse o consultor.

O presidente da ACIC, o empresário Wallaci Machado, afirma que essas empresas com mais de 30 anos de atuação no município têm pelo menos duas lições a ensinar. “Primeiro, isso mostra que elas estão atendendo a uma necessidade real do consumidor. Empresas que só entram nas modinhas não sobrevivem há tanto tempo. Segundo, mostra que o município de Cerejeiras tem um mercado sólido, que sustenta negócios com essa duração”, disse o empresário.
Durante o tempo de apuração desta reportagem, que durou uma semana, o autor desta coluna percebeu que pelo menos dois motivos podem ser apontados para a durabilidade destas empresas com três décadas ou mais de atuação em Cerejeiras. O primeiro motivo é interno. O segundo, externo.

O motivo interno é a maturidade do empreendedor. Persistência, visão de longo prazo, paciência, trabalho duro e, acima de tudo, uma vocação empresarial. Em outras palavras, são homens e mulheres que nasceram para aquilo que fazem. Com estas virtudes dentro de si, estes empreendedores têm mais condições de enfrentar as agruras do negócio, já que as dificuldades sempre aparecem.

Já o segundo motivo é externo. Ou seja, o cenário do mercado é propício para estes negócios. As empresas atendem às demandas que realmente existem na sociedade. Não há empreendedor persistente que consiga fazer uma empresa que não atenda às necessidades dos consumidores a sobreviver. Por outro lado, apenas um mercado propício não é garantia de sobrevivência dos negócios no decorrer do tempo. É uma coisa que lida a outra. É o interno que se casa com o externo.

Um exemplo destas duas realidades é o empresário José Carlos, da Metalúrgica Paraná, que abre esta reportagem.  Segundo ele conta, ele passou por diversas dificuldades, mas trabalhou persistentemente e inovou para atender as novas exigências dos fregueses. “Teve momento, que pensei em desistir. Mas continuei firme. Os clientes iam pedindo novos modelos de serviços e eu fui aperfeiçoando a empresa para atendê-los, enfrentando todos os desafios que isso representava. Se eu não fizesse isso, o meu negócio já teria desaparecido e outras empresas de fora teriam tomado o meu espaço no mercado”, disse o empreendedor.

Em outras palavras, o mercado cerejeirense é para todos os empreendedores, mas nem todos os empreendedores são para o mercado cerejeirense. Um bom mercado exige um bom empreendedor.
 



 
 
 
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